A lição depois de uma perda financeira

Juliano Godoy transformou uma crise financeira, que o fez perder 95% do patrimônio, em aprendizado. Nesta entrevista, ele conta as lições que tirou dessa experiência
10 de fevereiro de 2026 em Edições Impressas, Entrevista

Economista formado pela Universidade Estadual de Campinas, Juliano Godoy construiu uma carreira sólida como executivo, no Brasil e exterior. Trabalhou em grandes empresas até se mudar para os Estados Unidos, em 2013, onde vive até hoje.

Aos 42 anos, no entanto, a trajetória de Godoy sofreu uma ruptura profunda. Uma grande perda financeira abalou não apenas seu patrimônio, como também a saúde emocional e estabilidade da família. A crise desencadeou um período de ansiedade, insegurança e depressão.

Foi nesse contexto que nasceu o livro Além da Queda – O Que Perder Tudo Me Ensinou Sobre Vida, Saúde Mental e Negócios, publicado em 2025 (editora Alta Life). A obra mistura relato pessoal e educação financeira comportamental para discutir um tema pouco abordado: o impacto das emoções nas decisões sobre dinheiro.

“O livro começou como um processo terapêutico”, conta Juliano. “A escrita me ajudou a entender por que tomei certas decisões e funcionou como um processo de cura.”

Na entrevista a seguir, concedida ao estudante Lucas A., de 14 anos, aluno do Colégio Objetivo de Adamantina, no interior de São Paulo, Juliano fala sobre dinheiro, comportamento, risco, aprendizado e recomeços.

Por que você decidiu escrever sobre o momento mais difícil da sua vida?

O livro começou como um efeito terapêutico. Quando tive uma grande perda financeira, isso gerou uma insegurança muito grande, uma ansiedade enorme para mim e minha família. Tudo isso acabou me levando a um estágio de depressão.

A escrita foi um escape. Primeiro para tentar entender psicologicamente o que tinha acontecido comigo, por que meu cérebro havia tomado aquelas decisões. Depois veio um sentimento de cura, de tirar aquilo da cabeça e colocar no papel. Quando terminei, percebi que talvez pudesse ajudar outras pessoas — tanto a evitar erros como enxergar que existe luz no fim do túnel.

Qual é a diferença entre saber investir e saber lidar emocionalmente com o dinheiro?

Saber investir é muito mais técnico. Você estuda mercado, faz cursos, aprende matemática financeira. Essa é a parte racional. Já lidar com o dinheiro é algo emocional e psicológico — e muito mais difícil. O dinheiro funciona quase como a comida para algumas pessoas: quando estão frustradas ou tristes, usam aquilo como compensação.

Também existe a comparação social. A gente vive se comparando o tempo todo e vê apenas a vitrine do outro. Ninguém sabe o que está por trás. Às vezes, a pessoa tem um carro novo, mas não tem dinheiro na conta para pagar as parcelas.

Muitas pessoas associam educação financeira apenas a planilhas e rentabilidade. O que deveria vir antes disso?

Antes de tudo, é preciso entender valores e objetivos. A pergunta não é “quanto eu vou render?”, e sim “por que estou investindo?”. É para me aposentar? Comprar uma casa? Ter segurança se perder o emprego? Ou quero acumular patrimônio rapidamente? Ter clareza do objetivo ajuda a definir o perfil de risco. Dependendo do que você quer, o tipo de investimento muda completamente.

Quais comportamentos mais influenciam as decisões dos investidores?

O principal é o viés de excesso de confiança. A pessoa acha que sabe tudo, que estudou o suficiente, que tem certeza do que vai acontecer. O Daniel Kahneman, Nobel de Economia e autor do livro Rápido e Devagar, chama esse viés de “a mãe de todos os vieses”. Falta humildade para reconhecer que o mundo é maior do que o nosso conhecimento.

Outro muito comum é o viés de disponibilidade. Quando você decide investir em algo, começa a ver notícias, postagens e conteúdos apenas confirmando aquilo. O algoritmo reforça sua crença, e você passa a ter ainda mais certeza — mesmo sem ter.

É possível perceber quando uma decisão financeira está sendo guiada por medo ou ambição, e não por estratégia?

É possível, mas é muito difícil. Exige um nível alto de autoconsciência. Por isso volto sempre ao “por quê”. Entender por que você está tomando aquela decisão ajuda a separar emoção de estratégia.

Por que pessoas inteligentes e bem-informadas ainda cometem erros graves com dinheiro?

Por arrogância. Achamos que nossa experiência, nosso conhecimento e nossos relacionamentos são suficientes para garantir determinado resultado. Mas o mundo é incerto e extremamente volátil. Ninguém tem todas as informações. Basta um evento externo, como uma crise, guerra ou decisão política, para mudar tudo de um dia para o outro.

Como reconhecer o próprio limite de risco?

Uma pergunta essencial é: se tudo der errado, o que acontece comigo? Se eu perder esse investimento, continuo vivendo? Tenho reserva? Consigo seguir investindo, ou isso me tira completamente do jogo? O grande perigo é cometer um erro tão grande que ele te exclui do jogo financeiro. Foi isso o que aconteceu comigo.

Quais aprendizados você só teve depois da queda?

O primeiro foi entender que nem tudo depende da gente. Não é sempre causa e consequência. Às vezes, fazemos tudo certo e o resultado não vem. Existem fatores externos, os chamados “cisnes negros”, que fogem totalmente do nosso controle. O segundo foi perceber que a queda não é o fim. Ela pode ser o começo de uma nova trajetória. Naquele momento, achei que tudo tinha acabado. Hoje vejo que foi uma chance de recomeçar.

Que conselho de educação financeira você daria aos jovens?

Sejam curiosos. Façam perguntas. Não assumam que estão certos. Tenham humildade.

Depois do lançamento do livro, quais são seus planos de vida?

Quero ser um bom pai, um bom marido, uma boa pessoa para minha comunidade e alguém que faça diferença onde trabalha. Não tenho grandes ambições materiais. Se eu conseguir impactar positivamente as pessoas ao meu redor, isso já gera um efeito multiplicador.

Sua relação com o dinheiro mudou após tudo isso?

Bastante. O que não se alterou é a consciência de que dinheiro é importante. Ele impacta diretamente a qualidade de vida. O que mudou foi a rigidez. Antes eu era um poupador muito estressado, preso a números e metas inflexíveis. Hoje entendo que os objetivos podem variar, que posso ter mais equilíbrio, viver experiências e ter flexibilidade sem perder responsabilidade.

 Menina com celular. Foto criada por diana.grytsku - br.freepik.com

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