Mercosul e União Europeia. Foto: Getty Images Depois de 25 anos de negociações e idas e vindas, os países da União Europeia (UE) aprovaram provisoriamente, em 9 de janeiro, o acordo comercial com o Mercosul. O livre comércio entre os dois blocos teve voto favorável da maioria das 27 nações europeias. Os contrários foram França, Polônia, Irlanda, Áustria e Hungria. A Bélgica se absteve.
Apesar da aprovação, o acordo ainda não está valendo. O texto precisa passar por votação dos parlamentares europeus e pelo congresso nacional de cada país do Mercosul. Esse trâmite pode levar anos e não está livre de riscos políticos.
O tratado prevê livre comércio, cooperação política e diálogo institucional entre os países da UE e do Mercosul. No eixo comercial, o objetivo central é reduzir — e, em muitos casos, eliminar — tarifas de importação e exportação entre os dois blocos, que, juntos, reúnem cerca de 780 milhões de consumidores. Do lado do Mercosul participam Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai; do lado europeu, 27 países da UE.
O núcleo do acordo estabelece a redução de tarifas para mais de 90% dos produtos comercializados entre os blocos, com prazos de transição que podem chegar a 10 ou 15 anos, dependendo do setor.
Entre os principais pontos estão:
- A abertura gradual do mercado do Mercosul para produtos industriais europeus, como máquinas, automóveis, medicamentos e bens de capital.
- A ampliação do acesso do Mercosul ao mercado europeu para produtos agropecuários, como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja e grãos, em geral por meio de cotas.
- Regras comuns sobre compras governamentais, propriedade intelectual, serviços e facilitação de comércio e compromissos em áreas como meio ambiente, direitos trabalhistas e desenvolvimento sustentável.
As negociações começaram oficialmente em 1999, mas enfrentaram longos períodos de paralisação. As principais travas sempre foram políticas e setoriais. Na Europa, agricultores — sobretudo na França, Irlanda e Polônia — temem concorrência de produtos agropecuários sul-americanos, considerados mais baratos.
Já no Mercosul, a indústria manifesta receio de competir com bens manufaturados europeus, especialmente nos setores automotivo e químico. Nos últimos anos, temas ambientais e cláusulas de sustentabilidade também ganharam peso, tornando o texto politicamente ainda mais sensível.
O que o Brasil ganha com isso
No Mercosul, o agronegócio é visto como um dos principais beneficiados, em especial exportadores com padrão sanitário já compatível com as exigências europeias. Para a indústria, o impacto tende a ser desigual: setores mais competitivos podem ganhar acesso a insumos e tecnologia, enquanto outros enfrentarão maior pressão concorrencial.
Na União Europeia, empresas industriais e de serviços enxergam oportunidades de expansão em um mercado historicamente protegido. Já produtores rurais europeus temem queda de preços e perda de mercado interno, o que explica a resistência política ao acordo.
Por que o acordo é estratégico
Além do impacto comercial direto, o acordo UE–Mercosul tem forte componente geopolítico. Em um cenário global marcado por tensões comerciais, guerras tarifárias e disputas entre grandes potências, o pacto sinaliza uma aposta no multilateralismo e na diversificação de parceiros econômicos. Para o Brasil, especialmente, o acordo representa a chance de reduzir a dependência de poucos mercados e ampliar sua inserção em cadeias globais de valor.
Fontes: Reuters e BBC.


